Com 53% dos brasileiros desconfiando do Supremo, candidatos já colocam a reforma do Judiciário no centro da campanha presidencial.
O Supremo Tribunal Federal chegou ao primeiro semestre de 2026 diante de um dos momentos mais delicados de sua história recente. A crise de imagem acumulada ao longo dos últimos anos, agravada pelos desdobramentos do caso Banco Master, empurrou a discussão sobre a reforma do Judiciário para o topo da agenda política. Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril, 53% dos brasileiros afirmam não confiar na Suprema Corte, marcando um recorde histórico de desconfiança. É a primeira vez que a marca dos 50% de desconfiança é ultrapassada, um dado que diz muito sobre o momento que o país atravessa. POLITIZA BRASIL
Esse cenário não ficou restrito às páginas jurídicas. Rapidamente, a questão migrou para o debate eleitoral de outubro de 2026, e os pré-candidatos à Presidência da República trataram de posicionar suas visões sobre o futuro do Judiciário brasileiro. O que estava antes circunscrito à comunidade jurídica virou pauta de cidadãos comuns que acompanham, cada vez mais, o funcionamento das instituições.
As investigações sobre o Banco Master e o peso sobre o STF
O estopim mais recente da crise tem nome e contexto específicos. A crise institucional do STF foi agravada pelas investigações sobre possíveis relações entre ministros e o Banco Master, com documentos e mensagens encontradas pela Polícia Federal indicando vínculos que suscitam questionamentos sobre a imparcialidade dos magistrados envolvidos. Entre os nomes citados estão Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Nunes Marques, cada um com circunstâncias distintas de ligação ao banco ou ao seu entorno empresarial. Jornal TaguaCei
O ministro Dias Toffoli foi o que teve a situação mais objetiva: ele era relator do caso Master no STF, mas deixou o inquérito após admitir ser sócio da empresa que vendeu uma participação de um resort no Paraná a fundos ligados ao banco. Os outros dois casos ainda alimentam debates sobre a extensão das conexões. Para parte da comunidade jurídica, as circunstâncias reforçam a urgência de um código de conduta claro para os ministros. Para outra parte, os instrumentos legais já existentes seriam suficientes. Jornal TaguaCei
O presidente do STF, ministro Edson Fachin, reagiu ao momento com um discurso de autocrítica. Na abertura do ano judiciário, Fachin destacou a necessidade de uma autocorreção para restabelecer o equilíbrio institucional e a confiança pública na Corte, tendo liderado esforços para apresentar um conjunto de normas que regulem a ética dentro do tribunal. A proposta de um código de ética específico para ministros, porém, encontrou resistência dentro do próprio Supremo, onde alguns membros entendem que as restrições atuais já são suficientes. POLITIZA BRASIL
O que os partidos propõem para o Judiciário
Com o tema aquecido, os partidos logo trataram de incluir a reforma do Judiciário em seus programas. O PT foi um dos primeiros a formalizar essa posição. O novo programa político do partido defende uma reforma no Poder Judiciário e propõe instituir e aperfeiçoar códigos de ética e conduta no âmbito das cortes superiores, inclusive no Supremo Tribunal Federal, assegurando padrões claros de integridade, transparência e responsabilidade institucional. A proposta petista vai além do código de ética, e inclui, entre outros pontos, o fortalecimento de mecanismos de autocorreção e a revisão de privilégios corporativos no Judiciário. CNN Brasil
Do lado da oposição, a pauta ganha contornos mais agressivos. O pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, disse que uma de suas principais propostas de campanha será a desburocratização e o impeachment de ministros do STF, defendendo que o Senado, com dois terços renovado, seria majoritariamente favorável a essa pauta. A proposta ecoa uma PEC em tramitação na Câmara que permite ao Congresso anular decisões do STF consideradas inconstitucionais. Jornal TaguaCei
O debate entre reforma necessária e retaliação política
A dificuldade de separar propostas técnicas de manobras políticas é, segundo especialistas, o maior risco do debate atual. Uma nova reforma do Judiciário deve ter como foco um sistema jurisdicional capaz de prover segurança jurídica e acesso a direitos, com mais velocidade, confiabilidade e justiça, mas mudanças superficiais, assentadas em slogans fáceis ou de caráter puramente retaliatório não fortalecem o Brasil. Conjur
O diagnóstico sobre os problemas do Judiciário é relativamente compartilhado: morosidade estrutural, custo elevado para o jurisdicionado, desigualdade no acesso à Justiça e falta de mecanismos efetivos de controle externo. A divergência está no como reformar sem comprometer a independência do Poder Judiciário, que é um dos pilares do Estado Democrático de Direito. Reformar por consenso entre os poderes, como aconteceu em 2004 e 2009, seria o caminho mais virtuoso, segundo operadores do direito com experiência institucional.
O que está claro é que o tema não sairá da pauta antes das eleições. A combinação de crise de imagem do STF, investigações em curso e disputa presidencial acirrada coloca o Judiciário no centro de um debate que vai muito além das fronteiras jurídicas. E quanto mais o assunto avança no espaço público, mais importante se torna a qualidade técnica da discussão para que o resultado final fortaleça, e não fragilize, as instituições brasileiras.
Fontes: Politiza Brasil | CNN Brasil | Conjur | Jornal TaguaCei
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

