Taiza Tosatt Eleoterio

“Você está louca”: Taiza Tosatt Eleoterio explica como essas palavras desorganizam a percepção da mulher

Conforme aponta a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, a frase “você está louca”, dita com frequência dentro de uma relação, pode fazer mais do que ofender: ela desqualifica o que a mulher sente, recorda e percebe. Quando a pessoa que deveria acolher é a mesma que questiona sua sanidade, a mulher tende a duvidar de si antes de duvidar do outro. Essa dúvida cresce com a repetição e começa a interferir em decisões simples do dia a dia. Entender como essas palavras funcionam ajuda a reconhecer o efeito que elas têm sobre a percepção e a autoestima, e a oferecer acolhimento sem julgamento.

Quando duvidar de si, vira rotina

Ninguém duvida de si mesmo sem motivo. Em muitos relacionamentos abusivos, a dúvida é plantada aos poucos, em frases como “isso nunca aconteceu”, “você está exagerando” ou “você está louca”. Cada vez que a mulher ouve que sua versão está errada, a confiança na própria memória enfraquece um pouco.

Na leitura de Taiza Tosatt Eleoterio, o efeito dessas frases depende da repetição e de quem as diz. Vindas de alguém próximo, que deveria oferecer segurança, elas têm um peso maior e são mais difíceis de ignorar.

Palavras que desorganizam a memória e a percepção

Memória e percepção ficam frágeis diante de contestação constante. Quando a mulher afirma que algo aconteceu e é desmentida, ela passa a reconstruir a cena várias vezes na cabeça, tentando entender onde errou. Esse esforço consome energia e deixa pouco espaço para outras coisas.

A palavra “louca” tem um peso especial, porque toca em um estigma antigo. Ao usá-la, o parceiro não discute o que foi dito: desacredita quem disse. A conversa deixa de ser sobre o fato e passa a ser sobre a mulher, que se vê obrigada a provar que está bem.

O efeito da repetição: a mulher que passa a se calar

Com o tempo, muitas mulheres aprendem que falar traz o risco de ouvir de novo que estão exageradas. O silêncio, então, parece mais seguro do que o desacordo. Esse recolhimento nem sempre é percebido de fora e costuma ser confundido com aceitação.

Taiza Tosatt Eleoterio esclarece que o silêncio, nesse contexto, funciona como defesa e não como concordância. A mulher se protege de uma nova invalidação, ainda que isso custe a própria voz.

Como a psicanálise entende a dúvida plantada sobre si?

A psicanálise entende que a imagem que temos de nós se constrói, em boa parte, na relação com os outros. Quando quem importa nega o que a pessoa vê e sente, ela pode passar a desconfiar da própria experiência e a buscar no outro a medida do que é real.

Esse movimento, revela Taiza Tosatt Eleoterio, tem relação com a dependência emocional e com a insegurança. Quanto mais a mulher duvida de si, mais depende do olhar do parceiro para saber o que sente, o que alimenta o ciclo.

Recuperar a confiança na própria percepção

Recuperar a confiança na própria percepção é um processo gradual. Anotar o que aconteceu, conversar com alguém de confiança e buscar escuta profissional ajudam a confirmar que a memória e os sentimentos são legítimos. O olhar de quem não participa da dinâmica oferece uma medida mais justa. Pequenas confirmações, repetidas ao longo do tempo, ajudam a reconstruir a segurança.

Cada vez que a mulher confirma o que viveu, sintetiza Taiza Tosatt Eleoterio, ela fortalece a confiança em si e dá um passo em direção ao empoderamento feminino. A voz que parecia perdida volta a ser ouvida, primeiro por ela mesma.

Confiar na própria percepção é reconstruir o chão

A frase “você está louca” não descreve a mulher, e sim a tentativa de desacreditá-la. Reconhecer isso ajuda a separar o que foi dito do que é verdade e a devolver à experiência dela o valor que sempre teve.

Ninguém precisa provar a própria sanidade para merecer respeito. Taiza Tosatt Eleoterio lembra que, quando a mulher encontra escuta e apoio, a dúvida perde força e dá lugar à confiança de que o que ela sente, percebe e recorda importa. 

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